Uma nova editora, Kiala, foi criada – segundo a promotora, Elga Fontes (foto) – para publicar exclusivamente autores negros, referindo que surge como resposta à reduzida presença destes escritores nos catálogos portugueses. Na verdade mais não é de que uma forma moderna, racista, de regresso à escravatura que tanto nos indignou e contra a qual muitos escritores lutaram.
Por Orlando Castro
Mascarada com o rótulo da igualdade, está a tentar enclausurar esses escritores nas latrinas fedorentas da escravatura, criando uma jaula zoológica onde se poderão ver cidadãos assimilados a quem foi dado um espaço diferenciado, tal como no tempo do colonialismo.
Perguntei à editora portuguesa Perfil Criativo quantos escritores negros tem no seu portefólio. A resposta foi lapidar: “Não temos escritores negros”. E brancos? Acrescentei. Reposta: “Não temos escritores brancos”. Então… “Nós temos escritores”. Ou seja, não há escritores brancos, negros ou outros, há apenas e só Escritores. E são muitas dezenas do melhor da literatura lusófona.
Pecando por defeito, listo:
Álvaro Henriques do Vale | André Novais de Paula | André Zeferino | António Feijó Júnior | António Santos Gomes | Armindo Laureano | Bernardino Luacute | Carlos Mariano Manuel | Clément Mulewu Munuma Yôk | Eugénio Inocêncio (Dududa) | Fernando da Glória Dias | Fenando Kawendimba | Filipe Zau | Filomena Barata | Filomeno Pascoal | Fragata de Morais | Francisco Van-Dúnem “Vadiago” | Frederico Carvalho | Gemma Almagro | Gociante Patissa | Hélder Simbad | Hugo Henriques | Igor de Jesus | Jaime de Sousa Araújo | J.A.S. Lopito Feijóo K. | João Ngola Trindade | João Rodrigues | Job Sipitali | Jonuel Gonçalves | José Bento Duarte | José Paquete d’Alva Teixeira | JRicardo Rodrigues | Kalunga | Karen Pacheco | Kiavanda Felix | Lina Paula Pinto | Lívio Honório | Lobitino Almeida N’gola | Luis Philippe Jorge | Mafrano | Márcio Roberto | Maria Manuela Rocha | Marco Gouveia | Marcolino Moco | Mário de Carvalho | Miguel Neto (Nível) | Milanda | Nazário Muhongo | Orlando Castro | Paulino Maria Baiona | Patrício Wanderley Quingongo | Paulo Faustino | Sandra Poulson | Sebastião Ló | Sedrick de Carvalho | Shafu Duchaque | Tomás Lima Coelho | Tony João | Ventura de Azevedo | Victor Torres | Virgínia Coutinho | Wilton Fonseca | Wylsony dos Santos | Xavier de Figueiredo.
A Kiala pretende, de facto, reconhecer a inferioridade intelectual dos escritores que diz defender, reconhecendo que em vez de lutarem (como fazem muitos outros) de igual para igual, até porque têm igual, ou até maior- em alguns casos, valor, fogem para um reduto em que serão os melhores dos medíocres.
Alinham, aliás, com os novos colonialistas/fascistas portugueses que querem o regresso (ou a manutenção) da escravidão dos que não são brancos ou que, sendo-o, não aceitam ser autómatos. Estão, mais uma vez, a seguir os conselhos dos jacarés que se dizem vegetarianos.
“Queremos desmontar um bocadinho esta ideia de que um livro de um autor negro apenas pode ser sobre um tema ou apenas pode ter uma perspectiva. Normalmente assume-se que é o tema do racismo ou a perspectiva da dor. E também queremos sair um bocadinho dessa bolha, ou furar um bocadinho essa bolha, para mostrar, não só a quem trabalha no mercado, mas aos leitores de Portugal, que ser uma pessoa negra é também ser um ser humano como todas as outras pessoas, e as pessoas negras também vivem e escrevem sobre amor, sobre amizade, sobre identidade, sobre questões que são transversais a toda a gente”, revelou Elga Fontes, certamente lendo a ementa (vegetariana e escrita por um escritor… negro) dos jacarés.
